Hyde Tejo

9.25.2005

O PÂNTANO

Acabo de ler no PÚBLICO e não acredito. Quando acreditar, talvez não tenha energia anímica para continuar este blog.
A PJ e o Ministério Público concluíram pela existência de “fortes indícios da prática de crimes contra o Estado” imputáveis “a responsáveis políticos e titulares de cargos políticos”. Estão em causa membros de todos os governos das duas últimas décadas, ou seja, trutas pesadas do PS, PSD e CDS, porque o futebol, os sacos azuis de cada um e os esquemas tentaculares da construção civil e das imobiliárias os federavam a todos em tráficos comuns. E também executivos municipais destes partidos em vários pontos do País.
O caso mais saboroso é do primeiro-ministro Sócrates que, quando era secretário de Estado do Ambiente, invocou a vantagem de se aplicar legislação posterior ao negócio de um aterro intermunicipal para que o construtor contratado pudesse aumentar a factura em 75 por cento. Quem esfregou as mãos de contente foi o tesoureiro do PS que, então, pôde encaixar nas receitas do partido mais uns largos milhares de contos.
Milhões de contos circularam em facturas falsas, concursos falsos, financiamentos fraudulentos e pagamento de faraónicas campanhas eleitorais em dezenas de municípios a norte do Tejo, com especial incidência nos distritos de Braga e Porto. Mas nas 19 câmaras da Associação de Municípios do Planalto Beirão (zona Centro) o polvo não foi menos operativo. Segundo alguns autarcas desta zona citados pelo PÚBLICO, “as decisões eram tomadas ao nível do Ministério do Ambiente, escapando ao controlo da maioria das autarquias implicadas, que dependiam quase em absoluto dos fundos comunitários para tais investimentos”.
Há cerca de ano e meio foram abertos novos processos para se ver quantos tubarões nadaram neste mar de negócios escuros, mas a investigação estagnou logo, estando ainda hoje por contactar pelas autoridades judiciais todos os implicados. Até as conversas escaldantes, por telemóvel, entre Fátima Felgueiras e um juiz do Supremo Tribunal Administrativo, ficaram por investigar, apesar de ouvidas pela PJ e fazerem parte do processo. Para ajudar em toda esta tramóia, o governo de Guterres, quando os investigadores lhe pediram em 2000 a ajuda de peritos da Inspecção-Geral de Finanças e da IGAT, demorou dois anos a pôr o OK no despacho.
E a autoridade judicial também um precioso apoio a quem queria ver a coisa gorar-se. Em vez que concentrar as diligências no Ministério Público, que num único megaprocesso tinha pontes para todas as margens do pântano, fez como no paradigmático “caso Melancia”, fragmentando o inquérito e transformando cada fragmento num inquérito fechado e distribuído por diversos tribunais.
A Resign, criada nas áreas submersas do PS, foi a principal operadora dos tráficos financeiros, tendo um dos altos quadros desta empresa declarado para os autos que os contratos formalizados com municípios e outras entidades congéneres “não tinham subjacente qualquer trabalho ou prestação de serviços”, destinando-se apenas “a justificar a transferência de dinheiros do Estado ou das autarquias “para a Resign e, por intermédio desta, a devolução de pelo menos uma parte” desses dinheiros aos responsáveis pelas autarquias. A redistribuição seguinte já era feita no interior dos partidos.
Processos idênticos estão a decorrer muito discretamente na Área Metropolitana de Lisboa, de que é presidente Maria da Luz Rosinha, também presidente do Município de Vila Franca de Xira. A sua câmara é acusada de tranquibérnias várias noutros tantos processos, mas aqui a Resign é substituída por patos bravos como o patrão da Obriverca e outros. Seja qual for o desfecho destes processos, o que salta à vista é que a campanha eleitoral da D. Rosinha é milionária, sendo notório que só em outdoors (600 contos cada um) o PS de Vila Franca já gastou perto de 60 mil contos. E ainda a procissão vai no adro.
Quem atravessa este concelho verifica que o PSD, talvez por votar sempre ao lado da D. Rosinha nas deliberações que incluem imobiliárias e ou investidores afins, está a demonstrar igual poder financeiro em outdoors e mupis, num contraste com o BE e a CDU que, neste capítulo, têm uma campanha pelintra. O caso da CDU chega a ser surpreendente, porque, além de governar algumas das maiores freguesias do concelho, é a segunda força política do Município e aspira a reconquistar a Câmara.
Mas voltemos ao PÚBLICO e à epopeia de Fátima Felgueiras (Fatinha, para os seus fãs).
A juíza de Felgueiras, que anulou a decisão judicial de prisão preventiva aplicada à Fatinha, foi notária na zona até há quatro anos. Nascida ali perto, em Amarante, a juíza Ana Gabriela Freitas (Gabi, para os amigos) licenciou-se em Direito numa universidade privada do Porto e não se sabe quantos dos negócios ilícitos de Avelino Ferreira Torres (através do seu cabeça de turco que se tornou mediaticamente conhecido como “o suicida frustrado”) e do PS (através de Fátima Felgueiras e de outros alimentadores do saco azul) passaram pelo seu cartório notarial.
O que se sabe é que, antes do seu patético despacho de libertação, teve contactos com dirigentes socialistas e personalidades próximas da Fatinha. No dia do despacho, até se levantou mais cedo, para não chegar ao tribunal sem saber as últimas da vinda do Brasil de Fátima Felgueiras, que teve desvios contraditórios organizados pela PJ, pelo Ministério Público e pela própria Gabi que, à última hora, exigiu a presença da Fatinha em Felgueiras, para que ninguém mais pudesse frustrar a libertação da famosa torna-viagem.
Mas, quando o julgamento da Fatinha começar, o colectivo de juízes já nomeado não vai estar acima de toda a suspeita. Um dos seus membros é Felisberto Agostinho Santos, que tem pendente um inquérito do Conselho Superior de Magistratura por ter sido apanhado pela PJ, certa noite, numa casa de alterne, em Mirandela, de que era cliente habitual.
O feliz Felisberto foi seguidamente arrolado pelo Ministério Público como testemunha de acusação no julgamento dos donos das meninas exploradas na dita casa de alterne de que o juiz era utente. Apesar do seu precioso conhecimento de causa, o inefável Felisberto não acusou ninguém, alegando nunca se ter apercebido que havia ali “mulheres em situação ilegal” e jurando desconhecer a prática de crime de lenocínio, pelo qual o Ministério Público pretendia ver os arguidos condenados.
Mais felizes que Felisberto, só mesmo esses arguidos e, até ver, a D. Fatinha de Felgueiras, que o vai ter no júri que a há-de julgar, se entretanto, nada de inesperado acontecer.

9.18.2005

O Grito


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Voltaram a roubar “O Grito”. Será que já nem se pode gritar? E o que isso tem a ver com a futura nova Sé de Lisboa?
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Os cruzados, há mil anos, não se ficaram pelos morticínios e saques generalizados. Praticaram também o canibalismo. Convencidos, talvez, de que os muçulmanos não eram pessoas.
Quinhentos anos depois, já com a Teologia muito mais estruturada e o ouro a chegar em catadupas de baús das Índias Ocidentais, o Papa e os cardeais decretaram em concílio que os índios não têm alma e, portanto, não são pessoas humanas. Conceito que os esclavagistas alargaram aos negros, amarelos, polinésios, etc.
No século XX, fortalecidos com a experiência do Holocausto, de que o futuro Papa Bento XVI tinha sido um entusiasta, os judeus aplicaram a mesma receita aos palestinianos. Só não os começaram a comer porque a Tora proíbe o consumo de carne de porco e o racismo “povo eleito” estipula que todos os árabes, incluindo os muçulmanos não árabes, são animais da família dos porcos.
O que é que tudo isto tem a ver com a futura Sé de Lisboa?
Vamos por partes.
Muito antes do Holocausto, que Pio XII fingiu desconhecer, organizando a fuga de milhares nazis para as Américas, o Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido por Tribunal da Inquisição, queimou vivos milhares de não católicos e de católicos sem a pureza da Bayer (a tal que fabricou para Hitler os gases da “solução final”).
A Santa Casa da Misericórdia tornou-se herdeira dos bens de muitos dos sentenciados e, em poucas décadas, ficou a ser a maior proprietária de imóveis e terras em Portugal.
Nos anos 30 do século XX, rivalizando com Goebells, monsenhor Escrivá, que era tarado sexual, foi o primeiro espanhol a pregar a “guerra santa” contra os republicanos. Ainda antes de a guerra civil começar, já tinha milícias terroristas que entregou ao general Franco para prosseguir o massacre de democratas, entre os quais García Lorca.
Como fundador da Opus Dei, Escrivá criou a maior fábrica semi-secreta de quadros políticos e administrativos do capitalismo ibérico e seguidamente europeu e americano. Foi a maior derrota da Maçonaria. Mota Amaral e António Guterres vieram daí.
João Paulo II, depois de canonizar um cardeal nazi da Croácia, canonizou também monsenhor Escrivã e Bento XVI acaba de lhe inaugurar uma enorme estátua de mármore na principal fachada do Vaticano.
E o que é que tudo isto tem a ver com a futura Sé de Lisboa?
Sei lá…
O que os noticiários contam é que o futuro templo principal dos católicos lisboetas vai ser faraónico e vai chamar-se Basílica de Santo António. As obras começam em breve e o monstro será construído junto ao Tejo, nuns terrenos a sul do Parque das Nações.
A Gulbenkian paga os projecto e a Câmara Municipal dá o terreno, que é da Gesfimo, mas vai ser trocado por sabe-se lá que reais contrapartidas a essa imobiliária da família Espírito Santo, que foi um dos pilares do fascismo em Portugal e agora aparece implicada no “mensalão” brasileiro.
Assim, D. José Policarpo já não vai precisar de recorrer aos fundos obscuros do Santuário de Fátima, que também está a construir uma catedral gigantesca na Cova da Iria, aparentemente sem precisar de aplicar os resultados financeiros da lavagem do ouro dos judeus que os nazis escoaram para Portugal por confiarem no Salazar e no Cardeal Cerejeira.
O sr. Gulbenkian, que se refugiou em Portugal quando lhe apareceu um mandado internacional de captura, por alegadamente haver recorrido a ladrões e traficantes de obras de arte, depois de ter sido um dos principais financiadores dos bandos terroristas que assolaram a região caucasiana da antiga União Soviética, deixou um testamento para a sua Fundação que dispensava facilmente a extinção abrupta da sua Companhia de Bailado.
Bastava que o dr. Rui Vilar, em homenagem ao falecido “Sr. 5%” do petróleo arménio, que apostava tanto na arte, fizesse uma boa proposta a um tal Armando Vara que, agora, é administrador da GALP e tem o pelouro da exploração petrolífera. Como ambos são do PS, o entendimento não seria difícil.
Seria, aliás, muito mais fácil que chegar à fala com o cardeal Marcinkus, que João Paulo II guardou no Vaticano depois de a Justiça italiana o querer julgar pelo seu protagonismo na falência fraudulenta do Banco Ambrosiano e por ter ligações à Máfia e à Loja P2 que causou dezenas de mortos na Itália com atentados bombistas, inclusive em comboios suburbanos em horas de ponta.
O cardeal Marcinkus, um americano de gema que praticava lutas marciais, era então o chefe (administrador apostólico) do Banco do Vaticano (Instituto das Obras Religiosas – IOR), função que mais tarde acumulou com a de chefe da segurança de João Paulo II. Será que também vai ser canonizado?
Mas o que é tudo isto, comparado com a máquina de terror e negócios petrolíferos da Casa Real saudita, ou mesmo de outro saudita como Bin Laden, que têm parcerias obscuras com a família Bush, tanto no tempo do presidente pai como no tempo do presidente filho, tanto no petróleo como noutras áreas de negócio?
A verdade é que alguém roubou outra vez “O Grito”.
Será que já não se pode gritar?

Beatriz Pessoa

9.17.2005

O BOATO

Os boateiros não se calam. Agora assestaram baterias contra os autarcas socialistas em Vila Franca de Xira.
Talvez não seja de estranhar este sujo costume, se considerarmos que na degradada frente ribeirinha daquele concelho metropolitano dúzias de esgotos continuam da defecar directamente para o Tejo. São mais de 100 mil cocós por dia!
Até se diz que a presidente da Câmara Municipal, a socialista Maria da Luz Rosinha, quando se sente enjoada, vai até ao Algarve dar um passeio no seu barco. “Alguma coisa aprendeu”, diz-se, com o seu camarada de Almodôvar, o famoso António Saleiro, que era um pobre condutor de ambulâncias, na década de 80, quando foi eleito presidente da Câmara Municipal, e é agora um homem muito rico, com moradias no litoral espanhol e, além de um iate, possui também um avião.
Parece-me abusiva esta comparação, até porque a senhora, antes de ser eleita presidente da Câmara, em 1997, trabalhava numa loja de ferragens ds sua terra e já era esposa de um contabilista independente. Além disso, um autarca médio já ganha o suficiente para ter um barco e passar féreas na Costa Brava.
Mas vamos ao que interessa, para estarmos prevenidos quando certos boatos nos chegarem aos ouvidos.
Diz-se que uma exposição escaldante, em nome de um tal Ventura Henriques, chegou às mãos de Maria da Luz Rosinha, que imediatamente o terá convocado para um encontro a sós. Diz-se também que ele negou ser o autor dessa exposição e que fez saber isso mesmo a todas as entidades que receberam dela uma cópia, incluindo o delegado do Ministério Público, a DCIAP e a PJ.
O sr. Ventura Henriques não desmentiu pormenor algum da dita exposição nem, aparentemente, seria obrigado a fazê-lo, já que, alegadamente, alguém terá assinado essa exposição com o nome dele sem para isso ter obtido o seu consentimento.
Mas este não é o boato mais inquietante, apesar de já ter inspirado os cartazes da campanha eleitoral da coligação PSD/PP que jogam com palavras a duas cores, como “POLVOROSA” e “DOLOROSA”.
A verdade é que, se não for só boato e se o Governo PS não partidarizar os outros órgãos judiciais, à semelhança do que acaba de fazer com o Tribunal de Contas, aquelas três ou quatro páginas cheias de acusações gravíssimas, referentes sobretudo ao vereador Ramiro Matos, a alegados pagamentos de favores e a licenciamentos alegadamente ilícitos, vai ser alvo de investigações muito sérias das entidades judiciais e policiais, não restando dúvidas de que tudo será tirado a limpo e os ilustres autarcas vão emergir com a sua honra impoluta.
Passemos então aos boatos que têm mais a ver com os antecentes do próprio Ventura Henriques, um ousado promotor imobiliário que, durante anos, não foi mais que um modesto desenhador no Departamento da Habitação e Urbanismo da Câmara Municipal(DHU) de Vila Franca Franca de Xira.
Dizem os boateiros que o desenhador Ventura Henriques ganhou asas para os seus voos imobiliários quando era um menos que sulbalterno funcionário do Município. Tornou-se, nessa altura, amigo íntimo do vereador do pelouro em causa, um tal Carlos Silva que ficou conhecido como o “Sr. 15%” e que é, agora, o cabeça de lista do PS à Câmara de Sines, onde tem a grande vantagem de ninguém o conhecer.
É mais que certo que esta nomeação por percentagem nunca passou de uma torpe calúnia, até porque as más línguas continuam a dizer o inacreditável, ou seja, que ele não entregava ao PS todo o dinheiro que os patos bravos lhe davam para o partido.
Apesar disso, continua a haver quem não hesite em caluniar também o sr. Ventura Henriques, afirmando que era ele quem, de facto, “mandava” no DHU e que ele próprio se gabava de ter o vereador “nas mãos”.
Admito que eles tenham sido muito amigos, como é frequente entre homens de barba rija, e que essa amizade se tivesse alargado ao vereador seguinte do DHU, o sr. Ramiro Matos, que até é um ex-oficial da Força Aérea, mas nem pela cabeça me passa que tal amizade comportasse cumplicidades ilícitas, como os boateiros juram a pés juntos.
Aliás, o vereador Ramiro Matos nem sequer consta das actuais listas do PS, tanto para a Câmara como para qualquer outro órgão municipal ou de freguesia. Sinal de que nem o PS nem Maria da Luz Rosinha temem perder ou ganhar alguma coisa boa ou má através da dispensa do ilustre senhor.
São tão insensatos os boateiros que vão ao ponto de afirmar à boca pequena que a a história da amizade do sr. Ventura Henriques com o sr. Carlos Silva e com o sr. Ramiro Matos não ficaria a perder num confronto com a história da amizade do sr. Ferreira Torres com aquele funcionário administrativo da Câmara de Marco de Canaveses que recentemente tentou o suicídio.
E são precisamente estas comparações absurdas que tornam ainda mais inacreditáveis esses boatos, até porque não hesitam em associar-lhes aleivosamente o sucesso de grandes empresários do concelho, como o sr. Eduardo Rodrigues, da Obriverca, e o sr. Luís Filipe Vieira, que tanto se notabilizou à frente do futebol, tanto no Alverca como, agora, no Benfica.
Por isso, apesar de todas a denúncias e de todos os processos judiciais que a Xiradania tem promovido, continua muito longe de mim acreditar que o concelho de Vila Franca de Xira continue a ser ou alguma vez tenha sido “o mais bem acautelado paraíso dos patos bravos”que há em Portugal, como alguns têm a insensatez de afirmar.
Mas, enfim, boatos são o que são e é contra isso que devemos estar prevenidos.

B.P.

9.16.2005

O DIÁRIO

Pela milésima vez, reprimo hoje um velho impulso para iniciar um diário. Julgo que é muito mais saudável e muito menos indecente alimentar um blog despretencioso.
É que um blog, por definição, não é íntimo, ou seja, não é blindável a olhos terceiros, assim como não apela à construção fraudulenta da ideia que queremos ter de nós mesmos, que é mais ou menos a ideia que queremos que os outros façam de nós. É mesmo muito mais honesto, porque, também por definição, começa por admitir, ou desejar, o exercício daquilo que agora se banalizou, em jargão jurídico, como “o contraditório”. Ou seja, o comentário de quem o visita, que até pode ser um juízo severo, sem pensar já um acto de pirataria autoral.
Mas não resisto a anotar que a perplexidade continua a ser o meu “estado de alma” (outro lugar comum de largo consumo nos dias que correm).
Divorciada sem dramas e mãe de dois filhos não problemáticos, só me pesa o facto de ser professora (este ano, ainda não colocada) de História, no secundário, cumprindo a pena de ter nascido há 36 anos e de ter optado há 14 por uma licenciatura em Antropologia, depois de uma decepção em Sociologia e de um devaneio de dois semestres em Arquitectura.
É por tudo isto que faço parte de um grupo de pintores de domingo e de outro de caminheiros, além de frequentar uma tertúlia que, nas noites de sexta-feira, tenta adivinhar as manchetes do dia seguinte, depois de analisar e relacionar as notícias e as opiniões publicadas durante a semana.
Da sala do condomínio, onde quase todos peroramos com grande empáfia, com oito pisos por baixo e o Pavilhão do Futuro a 200 metros, confirmamos sempre que as luzes de Alcochete fazem o Tejo negro. Ou seja, uma inexistência que todas as manhãs é desmentida.
Daí o nome deste blog. Um Hyde que não tem Park, mas tem um Tejo controverso. Muito mais controverso do que eu, que não sou parente do poeta Pessoa, embora lhe tenha herdado um dos sobrenomes.
Aproveito este passo (vício da antropologia?) para dar conta de que o artifício pessoano dos heterónimos me levanta a suspeita de uma coisa feia: a falsificação do eu. Precisamos de um eu falso para nos mostrarmos a nós e aos outros?
Pessoa era Caeiro quando queria parecer-se com um deus ateu e era Campos quando queria ser tomado por um profeta agnóstico, ou seja, pelo inverso de Deus mas íntimo da divindade e, portanto, o detentor da sabedoria, à semelhança de outro fingidor hiperpretencioso chamado Jorge Luís Borges.
O uso imoderado de bebidas rascas que Pessoa fazia para ter um anestésico diário da sua consciência, que era o reverso da consciência fictícia de outro dos seus heterónimos, Bernardo Passos, era tão miserável como o seu mergulho alucinado no determinismo cósmico dos horóscopos, porque era uma tentativa de remeter a culpa para o obscuro, admitindo-a como tal, mas transformando-a em fatum, assim se desculpando face a Álvaro de Campos, a Alberto Caeiro e mesmo ao metafísico Ricardo Reis.
Talvez daí derive a sua olimpificação de vários notáveis da história nacional e a sua dramatização do desígnio místico da entidade nomeada como Portugal. E tudo isto faz parte da fraude que começa no parto múltiplo dos heterónimos.
É assim que, tendo herdado, como já disse, um dos sobrenomes do sr. Fernando poeta, não quero tomar-lhe nenhum dos heterónimos, apesar de tencionar discorrer sobre tudo o que me der na gana. E já comecei.
Foi ontem que arquitectei este blog, horas depois de ter escrito os seus dois textos inaugurais. Mas não vou dizer a ninguém que tenho um blog. Que o descubram os navegadores da net, já que temos todos a navegação no código genético (outro lugar comum na moda), desde que vimos pela primeira vez um folha morta ou o cadáver de um pássaro a serem levados pelas marés ou pelas águas inconscientes de um ribeiro descongelado dos Himalaias.
E agora descubro-me outra vez perplexa, porque acabei de escrever uma página inegavelmente diarística. E não pouco pretenciosa. Oxalá não reincida.

B.P.

9.15.2005

O PEDÓFILO

Sei agora que o padre Frederico terá sido apanhado a sair de um encontro com Fátima Felgueiras. Digo “terá sido apanhado” porque só sei o que outros terão lido na net.
O que tem piada é a resposta que ele terá dado a um jornalista brasileiro que lhe perguntara o porquê da visita: “O senhor está sonhando. Nunca fui à Fátima nem tenciono visitar Felgueiras.”
Fátima Felgueiras está no Brasil, como é geralmente sabido, para se furtar à prisão preventiva, dado encontrar-se formalmente acusada de alta cumplicidade, ou mesmo protagonismo, no caso do “saco azul” e de outros financiamentos ilícitos que misturavam os patos bravos, o futebol e o PS. O PSD e o CDS também não ficam de fora, diz-se.
Quanto ao padre Frederico, está também no Brasil, depois de o ex-bispo de Setúbal, D. Manuel Martins, o ter ajudado a fugir do Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus, mais conhecido por cadeia de Alcoentre, onde cumpria pena maior por assassínio de um dos garotos com os quais tivera práticas pedófilas.
O que me faz ecoar outra vez na memória “O Grito” de Munch é o ser voz corrente na Madeira e no resto de Portugal que o padre Frederico deu no que deu, porque ele próprio, quando miúdo, foi sodomizado por um seu professor no seminário funchalense em que estudou, professor esse que é agora, na qualidade bispo do Funchal, o principal cúmplice e protector de um bronco também eternamente impune chamado Alberto João Jardim.
Se este bispo é tão intangível como o ex-cardeal de Viena, que apenas resignou do cargo, e como os bispos e cardeais americanos, que nem dos cargos resignaram, depois de comprovadamente denunciados como pedófilos, tudo sob a santa protecção de João Paulo II e Bento XVI, o que tem desencorajado qualquer investida judicial, porque é que o padre Frederico não há-de visitar a Fátima Felgueiras sem ser caso de notícia?
E, aqui chegados, outras perguntas se poderia fazer, desde a gradação da pena do padre Frederico às peripécias da sua fuga.
Só que, de pergunta em pergunta, sempre se acaba por chegar a outros casos e, mormente, o da Casa Pia.
Um juiz colocou em prisão preventiva o ex-ministro e ex-deputado socialista Paulo Pedroso, acusando-o seguidamente de implicação nos factos pedófilos denunciados por algumas das alegadas vítimas.
Algumas dessas alegadas vítimas têm alegadamente sobrevivido como prostitutos que, por definição, fazem por dinheiro pelo que se lhes peça para fazerem.
Depois da surpreendente decisão do jovem juiz justiceiro, que foi ao Parlamento com a televisão atrás notificar o então deputado, a juíza que deu início ao julgamento achou que Paulo Pedroso estava a ser vítima de uma cabala e retirou-o do processo, devolvendo-o ainda mais espectacularmente à liberdade.
Começado o julgamento, várias alegadas vítimas continuaram a acusar Paulo Pedroso, descrevendo com grande à-vontade e com terrífica abundância de pormenores as práticas pedófilas alegadamente havidas com ele na sinistra casa de Elvas e noutras. Mas a juíza contrapõe sempre que S. Exa. não está a ser julgado e limita-se a mandar tirar certidões dos depoimentos quando não há mesmo outra volta a dar ao problema.
Virá Paulo Pedroso a ser reacusado?
E, se o for, porquê num processo à parte?
Será para ter um desfecho idêntico ao do “caso Melancia”, que parece ter regressado de Macau com dinheiro sujo bastante para continuar em liberdade, enquanto rodeia Castelo de Vide com imensidades de relva em campos de golfe e vê na cadeia apenas os corruptos seus subalternos que não tiveram a mesma protecção de um Presidente da República então chamado Mário Soares?
Diz-se que no “caso Casa Pia” há cabalas meticulosamente urdidas, testemunhos impostos pelo medo ou comprados a peso de ouro e conluios político-judiciais. A ser assim, são ainda mais lancinantes as perguntas que apetece fazer.
O que estava por trás das súbitas denúncias públicas das pessoas que se recusaram, ao longo de anos e anos, a comunicar à Justiça tudo que sabiam, preferindo castigar os corajosos funcionários que tentaram destapar o caldeirão?
Quem silenciou quem nestes últimos dez ou quinze anos?
Quem comprou quem neste julgamento?
Quantos culpados não estão a ser julgados, sabendo-se que a primeira lista do juiz justiceiro nomeava 72 pessoas, algumas das quais eram titulares e ex-titulares de governos e outros altos cargos do Estado?
Quantos inocentes vão ser condenados?
Quantos culpados vão ser declarados inocentes?
Quantos pedófilos vão continuar a rir-se do “caso Casa Pia” e a resguardar-se melhor nas suas eventuais práticas criminosas presentes e futuras?
Quem julga a máquina judicial que conduziu este julgamento a uma inevitável dúvida final feita de tantas perguntas sem resposta garantida?
B.P.